terça-feira, 6 de outubro de 2009

Há uma criança e um submarino...

Olá! Após um longo período de ausência virtual, aqui vai um crônica escrita por uma pessoa a quem admiro bastante, João:



Há uma criança agonizando não tão longe daqui. Ela insiste em viver, conforme confidenciou o médico. Ela sofreu oito paradas cardiorrespiratórias, mas continua viva. Existe uma espécie de caixa transparente de acrílico envolvendo a sua cabeça. Dentro dela pululam nuvens de gases esbranquiçados, como se antecipassem a imagem de um paraíso infantil. Não lhe permitem a transferência para um setor de terapia intensiva, apesar de tão intensivo ser seu sofrimento, tão intensa a sua presença pequenina, estranhamente silenciosa, como se pedisse desculpas por existir e por não partir rapidamente, ao contrário dos outros bebês mais saudáveis acomodados na mesma sala. Disseram que lhe destinar uma vaga na UTI seria prejudicial ao sistema. Como permitir que ela ocupe o lugar se não possui chances de vida? Ela, entretanto, como disse o médico, insiste em viver. E a cada início de plantão, quando o doutor dirige-se ao berço de tortura, lá continua a criança ainda viva, surpreendendo a sua ciência, mexendo as pernas como um jogador de futebol, os olhos meio abertos, meio fechados. Da mãe, pessoa pobre, nada se pode esperar. Não permanece na cidade acompanhando o filho. Está no interior do estado, longe. Como imaginar o sofrimento que sente ou que não sente!
Há um submarino acidentado no fundo do mar com aproximadamente cem tripulantes a bordo, talvez todos vivos. Eles também insistem em viver e o mundo inteiro se dispõe a ajudar no salvamento. São deslocados equipamentos, países gastam fortunas em providências. Há uma comoção mundial e todos se mobilizam. Os tripulantes supostamente resistem, não querem sufocar no fundo do mar dentro de uma casa de aço. O mundo presume tal desejo. Eles também são silenciosos, pelo menos sob o ponto de vista do resto do mundo, mas o que estará se passando no interior do submarino? Desenganados várias vezes, o mundo insiste em ajudá-los e há quem critique a autoridade russa que não interrompeu suas férias. Os críticos não clamam por conhecimentos científicos ou recursos materiais de tal autoridade, simplesmente apontam que ela não se juntou aos que contemplam e lamentam as falhas tentativas de resgate.
Há uma chance para os tripulantes e nenhuma para a criança que agoniza. Não há qualquer notícia em jornal regional, um grito de socorro, não existe quem lhe arranque o soro, quebre a caixa de acrílico e clame por uma vaga no setor adequado. Não há quem perceba a mão fria do estado, dos funcionários, da sociedade. É só indiferença e não existe um Deus palpável para resolver a situação e punir o mundo, réu confesso. A família do menor, lactente conforme rotulou o médico, não aparece na televisão orando, como aconteceu com os parentes dos tripulantes russos. A criança que agoniza é um nada, é uma conta a mais a ser cobrada do “SUS”, conta barata. O Hospital, em verdade, segundo seu administrador, perderá financeiramente. A entidade está prestando um favor à infeliz.
A criança e os tripulantes do submarino ainda insistem em viver.
PS: O submarino russo Kursk naufragou no Mar de Barents em 12 de agosto de 2000. Investigação oficial apontou a explosão de um torpedo no interior do submarino como a causa do acidente, mas não conseguiu explicar como isso aconteceu. Os tripulantes não morreram com a explosão, pelo menos nem todos. Foi encontrada nos destroços do Kursk uma carta escrita por um tenente-capitão que revela e comprova a sobrevida dos tripulantes após a explosão. O governo russo já gastou dezenas de milhões de dólares para resgatar os destroços e os cadáveres, bem como para pagar as indenizações às famílias. Todos morreram.
A criança morreu poucos dias depois, na mesma enfermaria, longe da mãe, ainda esquecida, não sei seu nome...


Pedro Alcobaça

4 comentários:

  1. Crônica merecidamente premiada!

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  2. muito bom, escreve muito bem o João. Layout novo einh

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  3. até copiei aqui pra m,andar pra uns amigos!
    da hora!

    abs

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  4. Adoro crônicas. Essa é bem tocante (e bem escrita). Tenho a impressã de que eu já tinha lido antes...

    Parabéns pelo blog.

    http://daretoinspireme.blogspot.com/

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